quarta-feira, 29 de abril de 2015

Paracetamol: pesquisas trazem resultados negativos pelo uso incorreto do medicamento.

Fonte: http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/the-new-york-times/2015/04/28/tylenol-nao-inibe-apenas-a-dor-mas-tambem-as-emocoes-aponta-estudo.htm#fotoNav=3

Estudo mostra que o medicamento é um dos maiores causadores de lesões no fígado

O paracetamol está presente na maioria dos lares brasileiros e europeus. É bastante usado em tentativas de suicídios, sendo um grande causador de lesões no fígado.
Tomar de uma só vez grandes quantidades de paracetamol pode lhe causar grandes lesões no fígado, algumas irreversíveis, necessitando de transplante. Em outros casos, tomar deliberadamente paracetamol pode resultar em uma hepatite fulminante, com conseqüências fatais.
Estudo publicado na British Journal of Clinical Pharmacology mostrou que dos 663 pacientes hospitalizados com graves lesões no fígado, ¾ eram provocados por ingestão incorreta de paracetamol. O quarto restante havia ingerido doses maiores do que a prescrita na receita médica.
Na França, estudo mostrou que cerca de 90% das falências hepáticas com necessidade urgente de transplante de fígado são causadas pelo uso incorreto do paracetamol. Ele é um medicamento vendido livremente no Brasil e bastante prescrito pelos médicos, o que pode revelar números alarmantes de problemas hepáticos no país se uma pesquisa como esta fosse realizada por aqui.
A dose máxima de paracetamol recomendada nos países da Europa é de 4 gramas por dia. A partir de 6 gramas ingeridas o paciente pode sofrer graves lesões no fígado, embora já tenha sido encontrados pacientes com lesões hepáticas importantes consumindo a dose máxima recomendada.
Na França, o paracetamol é atualmente o medicamento mais vendido. Os médicos alertam que não existe necessidade de bani-lo do mercado mundial. Todo medicamento tem efeitos colaterais e trata-se de uma droga segura. O que deve existir é uma melhor vigilância, procurando orientar de forma mais incisiva os pacientes para respeitarem as doses recomendadas.

Tylenol não inibe apenas a dor, mas também as emoções, aponta estudo

Um estudo recente demonstrou que o paracetamol (Tylenol), popular remédio contra a dor, também pode tornar as pessoas insensíveis a emoções positivas e negativas.
Em um experimento randomizado e controlado, 85 pessoas tomaram 1.100 miligramas de Tylenol ou um placebo. Uma hora depois, os pesquisadores apresentaram a eles 40 imagens em ordem aleatória. As imagens eram muito agradáveis (por exemplo, crianças rindo com gatinhos em um parque), neutras (um rolo de macarrão em cima de uma mesa) ou muito desagradáveis (um vaso sanitário cheio de excrementos). O estudo foi publicado online no periódico "Psychological Science".
Os participantes que tomaram Tylenol estavam 20% menos propensos a classificar as imagens como sendo muito desagradáveis e 10% menos propensos a classificá-las como bastante agradáveis, em comparação com os que tomaram placebo.
Embora os mecanismos permaneçam incertos, pesquisas anteriores sugeriram que o Tylenol reduz a dor agindo na ínsula, parte do cérebro que influencia nas emoções sociais, entre outras funções.
"Não queremos dar conselhos sobre o uso do paracetamol. Essas diferenças são modestas e foram obtidas em um ambiente muito controlado. Recomendamos seguir o conselho de seu médico para o controle da dor com o Tylenol", afirmou Geoffrey R.O. Durso, doutorando de psicologia da Universidade Estadual de Ohio.
Fonte: UOL Notícias

Besouro bioluminescente carnívoro é descoberto na Amazônia

Bruno Rizzato



O fotógrafo Jeff Cremer encontrou em um passeio pela área peruana da Floresta Amazônica, há alguns anos, exemplares de besouros carnívoros que brilham no escuro.

Ele retornou ao local no início deste ano, com o entomologista Aaron Pomerantz e estudantes da Universidade da Flórida (Mike Bentley e Geoff Gallice), para analisarem um pouco mais essa espécie tão exótica.
Acredita-se que estes besouros utilizem a luz emanada de seus corpos para atrair presas.
Para saber a natureza predatória do inseto, os especialistas realizaram um teste espontâneo, ou seja, uma formiga foi usada como cobaia para uma experiência em uma grupo de besouros. “Eles foram vorazes, apertando suas mandíbulas e arrastando suas presas para dentro dos seus túneis”, explica Pomerantz. O teste pode confirmar a hipótese primária dos entomologistas.

Apesar de tudo, ainda sabe-se pouco sobre a espécie. Acredita-se que eles façam parte da família de besouros Elateridae, que possui 10 mil espécies descritas ao redor do planeta. Em apenas 200 delas a bioluminescência foi registrada.
Esses besouros encontrados no Peru utilizam uma parede de terra, ao invés de um cupinzeiro (como muitos besouros fazem em colônias), em suas casas e no terreno de caça, o que sugere que este grupo enigmático poderia ser um nicho diferente ainda não documentado”, relataram os especialistas.
Portanto, não confunda estes raros besouros com algo comum! Eles são espécies raras que ainda serão estudadas a fundo pelos cientistas.

Fonte: IO9 / Jornal Ciência

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Em 07/03 iniciará a 1 turma da Pós Graduação lato sensu em Análises Clínicas Animal no IPESSP


É com muita alegria que venho divulgar a confirmação da formação da 1ª Turma da Especialização em Análises Clínicas Animal, do IPESSP - Instituto de Pesquisa e Educação em Saúde de São Paulo, que iniciará suas aulas no próximo dia 07 de março. 

Conforme os posts mais antigos, desde 2013 este Blog debate a respeito da possibilidade de biólogos cursarem a Especialização em Análises Clínicas Animais, todavia, em todas as instituições as quais tentei fazer inscrição, minha matrícula foi sumariamente negada, embasada em Resoluções do CFMV completamente arbitrárias. Toda essa discussão pode ser lida acessando os arquivos do Blog.

E em um feliz momento, recebi a visita do então acadêmico de Ciências Biológicas Fernando César (o idealizador do site "Biológo: Profissional da Vida", e hoje colega Biólogo) e, através de seus comentários começamos um bate-papo, que virou um projeto, posteriormente apresentado ao IPESSP, e que foi abraçado com muito carinho. 

Qual o diferencial do curso: a oportunidade de admissão no corpo discente graduados de Ciências Biológicas, Biomedicina e Farmácia, além de Médicos Veterinários, além de ser uma especialização atualizada com as mais recentes metodologias, tecnologias e discussão de casos. 

Como bem disse o Fernando César: "VITÓRIA DOS BIÓLOGOS, que agora contam com uma especialização de qualidade em uma instituição nomeadamente especialista em Análises Clínicas!"

Quer saber mais informações sobre o curso, ou tem interesse em se matricular? Ainda dá tempo! Entre em contato através do telefone (11) 3539-5767 ou acesse o link: 


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Cartas de Berlim: uma alemã sozinha no Suriname em 1700

Por: Tamine Maklouf*
Há um tempo venho trabalhando em uma coleção de mulheres alemãs inspiradoras, só para o prazer do arquivo mesmo e para ajudar nas referências. Já tenho umas dezenas. É um hobbie que tenho, pois desde que comecei a “entender de Alemanha” me deparo com alguma mulher na história que fez alguma coisa incrível.
Fonte: http://www.zeit.de/2009/47/Vorbilder-Merian
Por exemplo: você é uma mulher de 56 anos, casada, mãe de duas filhas. Você é cientista com uma carreira consolidada, mas sente que sua missão é maior, quer buscar novos horizontes, talvez se embrenhar na floresta tropical. Você mora em Amsterdam e tem a ideia de passar uma temporada em uma pequena vila no Suriname, para intensificar suas pesquisas, sozinha, ou melhor dizendo, na companhia da sua filha mais nova. E dos índios, claro. O ano é 1700.
Como dizem na minha terra, “te mete!”
Ela se chama Maria Sibylla Merian e ontem mereceu um Doodle do Google em homenagem ao seu 366o aniversário, o que fez muitas pessoas lembrarem desta naturalista alemã ou então simplesmente vir a conhecê-la (como eu!).
Fonte: https://royaltecidos.squarespace.com/blog/242013
Nascida em Frankfurt em 1647, foi a primeira pessoa a observar e ilustrar cientificamente a metamorfose das borboletas. Sua obra mais famosa, a qual se dedicou inteiramente durante a temporada no Suriname, basicamente deu início à entomologia, ciência que estuda os insetos. Esta mulher à frente do seu tempo foi pioneira na observação sistemática destes serzinhos insignificantes (assim todos pensavam).
Fonte: http://microecos.tumblr.com/post/46952804699/genusspecies-by-maria-sibylla-merian-and
Antes da pequena revolução que Maria Sibylla causou no campo científico, acreditava-se que os insetos eram um erro, vinham de pântanos e nem se imaginava que as fascinantes borboletas tinham dupla identidade! Mas os resultados de suas observações mostraram que todas as borboletas já foram lagartas. Se isso não chocou a sociedade do século 18, eu não me chamo Tamine.
Fonte: http://www.nashturley.org/2013/03/23/pioneering-naturalist-maria-sibylla-merian/


Maria Sibylla Merian é tão importante para a história da Alemanha, que estampava a nota de 500 marcos alemães até 2002. Na verdade a ideia era colocá-la na nota de 100, usada mais frequentemente do que a de 500. Porém, escolheram uma outra alemã que julgavam mais “bonita”para ilustrar a nota que circularia mais: Clara Schumann. Mas sobre essa eu não vou falar hoje não.
 *Tamine Maklouf é jornalista e ilustradora nas horas vagas. Mora na Alemanha desde agosto de 2009, onde se encontra na “ponte terrestre” Dresden-Berlim. De lá, mantém o blog Anedotas da Batatolândia

Pele artificial criada por laboratório da USP evitará testes com animais no Brasil

A pesquisa, lançada na Universidade em 2005, é coordenada pela professora da Faculdade de Ciências Famarcêuticas da USP (Universidade de São Paulo) Sylvia Stuchi Maria-Engler e visa desenvolver técnicas alternativas à experimentação animal. Com a transferência tecnólogica do projeto para o governo brasileiro, parceria iniciada em 2013, o objetivo é que o país possa produzir a pele em escala industrial dentro de alguns anos.

Estruturas celulares da pele artificial, aumentadas em microscopio, foram desenvolvidas pela USP.
Fonte: http://www.portugues.rfi.fr/geral/20140507-pele-artificial-criada-por-laboratorio-da-usp-evitara-testes-com-animais-no-brasil
O objetivo do projeto, explica a especialista, é desenvolver o kit de pele artificial para o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. De acordo com ela, estão sendo feito pequenos "ajustes protocolares" antes que a transferência de tecnologia possa ser efetivada. A pesquisa utiliza fragmentos de pele de doadores humanos. As células são purificadas e são estocadas em um banco.

Se for necessário, explica Sílvia, a pele pode ser totalmente reconstruída –tanto o epitélio quanto a derme. A pesquisa poderá ajudar no desenvolvimento de novas moléculas usadas em medicamentos contra o câncer de pele ou feridas crônicas provocadas pelo diabetes, por exemplo. A estrutura de pele desenvolvida pela USP também pode ser usada para a fabricação de cosméticos.

De acordo com Sílvia, o banco de pele pode armazenar apenas células. "O que é possível manter em banco são as células da pele, que são os queratinócitos, o melanócito, que fornece o pigmento e os fibroblastos, que formam a derme", explica. A descoberta também contribuirá para a diminuição da utilização de animais em testes farmacológicos, como prevê a nova diretiva do Concea (Conselho Nacional de Controle da Experimentação Animal), esclarece a pesquisadora.

A polêmica voltou à tona no Brasil depois da ação de ativistas em um laboratório em São Roque, que liberaram dezenas de cães da raça Beagle utilizados em testes farmacêuticos.
"Tivemos a determinação de, nos próximos cinco anos, estabelecermos métodos alternativos, e não utilizar mais animais para cosméticos. O Concea foi além, determinando também o fim do teste em animais para produtos farmacêuticos."

Sílvia explica que, apesar dessa instrução, o uso de animais em testes para medicamentos continua sendo imprescindível. "O teste pré-clínico envolve testes in-vitro e in-vivo, que é um modelo animal, e muito utilizado. O que estamos fazendo nos testes alternativos é minimizar, reduzindo o número de animais e desenvolvendo um novo desenho experimental", diz.


Fiocruz desenvolve drogas alternativas e vacina contra a malária

Por: Alana Gandra
Fonte: Agência Brasil – EBC
Edição: Stênio Ribeiro

O Laboratório de Pesquisa em Malária do Instituto Oswaldo Cruz (IOC-Fiocruz) está desenvolvendo drogas alternativas que possam ser administradas junto com uma vacina contra a malária para aumentar a imunidade em relação à doença. Ainda não há, porém, perspectiva de quando a vacina ou as novas substâncias estarão disponíveis, disse ontem (25) à Agência Brasil o chefe do laboratório e presidente da Federação Internacional de Medicina Tropical e Malária, Cláudio Tadeu Daniel-Ribeiro.
Nesta sexta-feira celebra-se o Dia Mundial da Luta contra a Malária, data em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) reforça a importância de se trabalhar para a eliminação da doença em todos os países. No momento, a Fiocruz está efetuando testes pré-químicos em animais próximos ao homem (primatas), mas ainda terão de ser feitas experimentações em humanos. “Acho que estamos chegando perto de termos uma vacina, em dez anos, que proteja completamente, e uma que proteja parcialmente, em cinco anos, ou até em três [anos]. As nossas [experiências] estão em um estágio menos adiantado”, manifestou o especialista.
Segundo Daniel-Ribeiro, o grande desafio para o Brasil, hoje, é eliminar a malária que mata, antes que ela se torne resistente às drogas disponíveis, procurando as pessoas infectadas em suas casas, como ocorria na década de 1950. Destacou, além disso, a necessidade de se “conscientizar a população e o pessoal da área de saúde que malária é um problema grave, de emergência médica, porque pode matar na área extra-amazônica”.
No país, a Amazônia concentra 99,6% dos casos de malária. Mas, graças ao diagnóstico imediato, os registros na região caíram 26% em um ano, passando de 241 mil casos, em 2012, para 177 mil, no ano seguinte. Daniel-Ribeiro explicou que quando o tratamento é feito nas primeiras 48 horas após a identificação da doença, diminui a chance de o paciente ficar muito doente e, eventualmente, morrer. Lembrou que 82% dos registros são causados por um parasita que não mata.
O tratamento atual utiliza uma associação medicamentosa que mata o parasita em poucas horas. Há boas ferramentas, disse o pesquisador, assegurando que está tentando desenvolver novas drogas, tendo em vista que 18% dos casos de malária se devem ao plasmódio (parasita da malária) que mata. Analisou como oportuna a decisão do milionário norte-americano Bill Gates, nos anos 2000, de investir recursos em pesquisas visando a erradicação da malária no mundo. A partir daí, os pesquisadores passaram a usar testes de diagnóstico rápido e mosquiteiros impregnados de inseticidas atóxicos. Além disso, passou-se a tratar a malária com uma associação de remédios e não apenas um único antibiótico.
O chefe do Laboratório de Pesquisa em Malária do IOC-Fiocruz acredita que os prefeitos “têm que investir no combate à malária. Têm que ser recompensados, se forem bem, e têm que ser punidos, se forem mal”. A malária, frisou, “tem que estar na agenda pública”.
Daniel-Ribeiro disse que, atualmente, 60% dos casos na Amazônia são tratados nas primeiras 48 horas. Os cerca de 4 mil postos de saúde da região estão preparados para fazer o diagnóstico imediato e o tratamento da população. Fora da Amazônia, incluindo as cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, mais bem equipadas, somente 19% dos casos são tratados também nos dois primeiros dias da doença, porque não há um diagnóstico rápido. “Porque o médico daqui não pensa como qualquer [pessoa de] posto de saúde da Amazônia pensa. Aqui, nós não somos treinados para pensar em malária. O médico pensa que é dengue”. O resultado, indicou, é que quando a malária é diagnosticada e tratada na Amazônia, a pessoa tem 100 vezes menos chance de morrer do que fora da região.
Números divulgados pela assessoria de imprensa do IOC-Fiocruz mostram que a redução no número de mortes por malária atingiu 40% na Amazônia, entre 2012 e 2013, caindo de 60 para 36.
Daniel-Ribeiro informou que nos anos de 1940, a estimativa, feita em cima do número de casos febris, é que havia 4 milhões de casos da doença por ano no Brasil. “Tinha malária no Brasil inteiro”, observou. Na década seguinte, a Organização Mundial da Saúde (OMS) resolveu que era preciso erradicar a enfermidade no mundo por meio de duas estratégias básicas: busca ativa e tratamento dos casos, indo às casas das pessoas; e combate ao vetor. Com isso, de fato, eliminou-se a malária de vários lugares do globo, inclusive da região extra-amazônica, no Brasil, completou. “Chegou-se ao início dos anos de 1960 com 37 mil casos registrados. Talvez fosse o dobro ou o triplo”. Avaliou, porém, que em comparação aos 4 milhões anteriores, “foi uma enorme redução”.
Em 1970, os casos subiram para 70 mil. Com os programas de fomento à mineração e à agropecuária, implantados pelo regime militar, Daniel-Ribeiro sublinhou que “o homem, literalmente, invadiu a floresta”, ocupando a Amazônia, sem saber, cultural e imunologicamente, como se defender dessa infecção, que não conhecia. “Foi uma mortalidade enorme”. Antes da virada do ano 2000, chegou-se a 600 mil casos no Brasil. De lá para cá, seguiu-se no país o programa da OMS de diagnóstico, busca ativa e tratamento dos casos, com a implantação, na Amazônia, de postos com capacidade de fazer diagnóstico e tratamento gratuitos.
O pesquisador do IOC-Fiocruz chefia um grupo de pesquisadores que é referência para o Ministério da Saúde em malária fora da Amazônia. Segundo expôs, o problema fora da região amazônica é só de vigiar, porque “tem muita gente que viaja, tem até mosquito que viaja, e eu preciso tomar cuidado, porque um caso aqui pode acarretar uma epidemia de dez e até de 100 pessoas. Tem que tomar cuidado para não reintroduzir a malária em lugares onde ela não existe mais”. Quase 90% dos casos registrados fora da Amazônia são importados, informou o pesquisador.

Fonte: Amazônia.org.br (publicada em 24 de abril de 2014)

Produção científica e lixo acadêmico no Brasil

Por: Rogério Cezar de Cerqueira Leite*


A resistência dos medíocres e a falta de coragem política das autoridades impedem o crescimento da ciência de alta qualidade no nosso país

Dois artigos publicados recentemente pela revista britânica "Nature", especializada em ciência, deixam o Brasil e, em especial, a comunidade acadêmica brasileira, profundamente envergonhados.
A "Nature" nos acusa, em primeiro lugar, de produzir mais lixo do que conhecimento em ciência. Nas revistas mais severas quanto à qualidade de ciência, selecionadas como de excelência pelo periódico, cientistas brasileiros preenchem apenas 1% das publicações.
Quando se incluem revistas menos qualificadas, porém, ainda incluídas dentre as indexadas, o Brasil se responsabiliza por 2,5%. O que a "Nature" generosamente omite são as publicações em revistas não indexadas, que contêm número significativo de publicações brasileiras, um verdadeiro lixo acadêmico.
O segundo golpe humilhante para a ciência brasileira exposto pela revista se refere à eficiência no uso de recursos aplicados à pesquisa. Dentre 53 países analisados, o Brasil está em 50º lugar. Melhor apenas que Egito, Turquia e Malásia.
Tomemos um exemplo. O Brasil publicou 670 artigos em revistas de grande prestígio, enquanto no mesmo período o Chile publicou 717, nessas mesmas revistas. O dado profundamente inquietante é que enquanto o Brasil despendeu em ciência US$ 30 bilhões, o Chile gastou apenas US$ 2 bilhões.
Quer dizer, o Chile, que aliás não está entre os primeiros em eficiência no mundo científico, é 15 vezes mais eficiente que o Brasil. Alguma coisa está errada, profundamente errada. A academia brasileira, isto é, universidades e institutos de pesquisas produzem mais pesquisa de baixa do que de boa qualidade e as produz a custos muito elevados. Há certamente causas, talvez muitas, para essa inadequação.
A primeira decorre de um "distributivismo" demagógico. É evidente que seria desejável que novos centros de pesquisas se desenvolvessem em regiões ainda não desenvolvidas do país. Mas é um erro crasso esperar que uma atividade de pesquisas qualquer venha a desenvolver economicamente uma região sem cultura adequada para conviver com essa pesquisa.
Seria desejável que investimentos maciços fossem aplicados em pesquisas em instituições localizadas em regiões pouco desenvolvidas, mas cujo meio ambiente é capaz de absorver os benefícios dessa inserção.
O segundo mal que é causa inquestionável da diminuta e dispendiosa produção de conhecimento é o obsoleto regime de trabalho que regula a mão de obra do setor de pesquisas em universidades públicas e na maioria dos institutos.
O pesquisador faz um concurso --frequentemente falsificado-- no começo de sua carreira. Torna-se vitalício. Quase sempre não precisa trabalhar para ter aumento de salário e galgar postos em sua carreira. Ora, qual seria, então, a motivação para fazer pesquisas?
O terceiro problema é o sistema de gestão de universidades públicas e instituições de pesquisa, cuja burocracia soterra qualquer iniciativa dos poucos bem-intencionados professores e pesquisadores que ainda não esmoreceram.
Pois bem. Há uma fórmula que evita todos esses males e que já foi experimentada com sucesso em algumas das instituições científicas do Brasil: a organização social. A resistência dos medíocres e parasitas e a falta de coragem política de algumas de nossas autoridades impedem a solução desse problema.

Fonte: Folha UOL